O que está acontecendo no mundo dos softwares de notação musical?

Eu sou uma pessoa que adora tecnologia e estou sempre acompanhando as últimas notícias na área. O mesmo acontece quando se trata dos lançamentos e novidades em relação à editoração musical. Por isso gostaria de falar um pouco sobre as coisas que estão acontecendo, os lançamentos e o que está por vir.

Finale

Vamos começar com o Finale. Este é um dos programas mais famosos de editoração musical e usado por muitas empresas de edição profissional. Na verdade, ele é  o software que eu domino, por isso posso ser um pouco suspeito quando comparar suas qualidades com outros programas, apesar de muitas pessoas acharem ele complicado de usar. O Finale costumava ter uma nova versão lançada a cada ano, por isso Finale 2010, Finale 2011, etc, geralmente lançado no 2º semestre do ano anterior à que ele é nomeado. Porém essa periodicidade foi interrompida após o lançamento do Finale 2012. Em 2013 foi lançado o Finale 2014 que é a versão atual do programa. Da versão 2012 para a versão 2014 houveram diferenças significativas. Apesar de não haver mais novas versões anuais do programa, seus desenvolvedores lançaram algumas atualizações. Para identificar as atualizações eles colocaram uma letra no nome ficando Finale 2014b, 2014c e 2014d. Em novembro do ano passado a MakeMusic, dona do programa, lançou sua última atualização que chamou de Finale 2014.5 que pode ser instalada separadamente.

Sibelius

O Sibelius é o maior concorrente do Finale. Na verdade foi graças a ele que os softwares de notação musical se desenvolveram tanto, pois ele entrou no mercado com funcionalidades que não existiam ainda, obrigando seus concorrentes, especialmente o Finale, a melhorarem. O Sibelius pode ser considerado tão bom quanto o Finale (pra ser sincero, eu acho que ele tem muitas vantagens em relação ao Finale que me dão uma vontade grande de usá-lo, por exemplo, ele possui uma linguagem de programação própria que permite a qualquer um criar plugins para ele). A última versão do Sibelius foi lançada em junho de 2015, o Sibelius 8. Ele recebeu sua última atualização essa semana, no dia 21 de janeiro que trouxe, dentre outras coisas, uma melhora muito grande no posicionamento automático das pausas.

MuseScore

Quem não tem condições de desembolsar uns 2 meses tocando em casamentos todo final de semana para ter um desses programas de notação, talvez já deve ter tido contato com o MuseScore. Este é um programa gratuito que tem seu código aberto. Ele é muito mais simples que o Finale ou Sibelius, porém para a criação de partituras não muito complexas ou de exemplos musicais para trabalhos acadêmicos, ele pode ser muito útil. A primeira vez que eu tive contato com ele eu desisti de continuar na primeira partitura que criei, porém, com o lançamento do MuseScore 2.0 em março de 2015 muitas coisas foram aprimoradas e tornaram mais fácil o uso do programa. Hoje ele está na versão 2.0.2.

LilyPond

Outro programa gratuito de código aberto é o LilyPond. Eu diria que ele é um programa diferente. Na verdade ele é totalmente diferente dos programas que falamos até agora. A maneira de se escrever suas partituras é utilizando o bloco de notas. Sim! Com o Bloco de Notas do Windows é possível escrever suas partituras. Vou te dar um exemplo:

\relative c' {
    c4 d e f g a b c
}

Esse texto acima é a representação de uma escala de dó no LilyPond e o resultado final será esse:

lilypond-exemplo

Para quem está acostumado a clicar com o mouse no valor da nota e depois sobre a linha para adicioná-la na partitura, essa abordagem é no mínimo muito esquisita. Mas para quem trabalha com programação, que está acostumado a fazer tudo escrevendo códigos em arquivos de texto isso é extremamente normal. Mesmo assim existem outros programas que servem para ajudar na criação de partituras do LilyPond, como o Frescobaldi, onde você escreve (literalmente!) sua partitura e já consegue ver o resultado gráfico quase em tempo real, além de ter várias ferramentas para ajudar a colocar articulações ou transpor uma parte.

O LilyPond, assim como todos os outros programas de editoração musical, evoluiu muito com o passar do tempo. O resultado gráfico que ele consegue atingir para um programa gratuito é muito bom. Mas eu acho que o aprendizado do programa é muito difícil, ainda mais para quem não está acostumado a criar coisas com o bloco de notas (como os programadores fazem). Para alterar as configurações padrões você precisa conhecer muitos códigos que às vezes são tão longos que fica difícil lembrar. Apesar disso ele tem suas vantagens. Com ele você pode criar ou editar suas partituras em qualquer lugar, no PC, no tablet, no smartphone. E também, usando ferramentas de versionamento (ou controle de versão), como o Git, você consegue visualizar exatamente cada modificação que você fez nos seus arquivos com o passar do tempo. Eu até comecei a escrever a partitura do meu mestrado com o LilyPond só para poder usar esse sistema, mas percebi que levaria muito tempo para fazer isso e para aprender a usar o programa. Eu recomendo a utilização dele, por sua qualidade, mas já aviso que no começo é meio estranho escrever as partituras assim.

Steinberg Music Notation

Se você está se perguntando, que programa é esse? Não se preocupe. Ele realmente não existe!

Em 2013 uma empresa chamada Steinberg da área de produtos de áudio propôs a criação de um novo programa de notação musical e contratou uma equipe de desenvolvedores para isso. Entre esses desenvolvedores está Daniel Spreadburry, que já foi Senior Product Manager (Gerente Sênior de Produto) do Sibelius. Ele mantém um blog em que descreve como está sendo o desenvolvimento deste novo software, o Making Notes. Lendo suas postagens dá para se ter uma noção do quão bem cuidado está sendo o desenvolvimento desse novo programa, de tal forma que já está se refletindo nas atualizações que estão sendo feitas pelo Finale e Sibelius. Veja por exemplo o que Spreadburry fala sobre o posicionamento das pausas em seu blog e qual é a melhora principal da atualização do Sibelius 8.1.

Uma outra coisa importante que surgiu desse projeto é a proposição de uma padronização das fontes usadas nos programas de notação musical. Spreadburry desenvolveu um padrão chamado SMUFL, Standard Music Font Layout, ou Layout Padrão de Fonte Musical e criou a fonte Bravura, que hoje já é incorporada em vários produtos que utilizam símbolos musicais, como o MuseScore, e com adaptações para outros, incluindo Finale, Sibelius e LilyPond.

Eu acredito que com o lançamento desse novo programa muita coisa pode mudar no mercado de softwares de notação e espero que para melhor. Enquanto isso vamos acompanhando as notícias e fazendo nossas partituras. Até a próxima!

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