Editoração musical: a influência do layout e da notação na performance

O texto a seguir é um trecho adaptado do meu Trabalho de Conclusão de Curso. O objetivo era que ele se tornasse um artigo acadêmico, mas depois de finalizado minha orientadora e eu concluímos que ele não serviria para esse propósito. Para não perder o trabalho que fiz, resolvi publicar aqui no EntreNotas.


Com a criação da internet e seu desenvolvimento até o que hoje é conhecido como Web 2.0, que é a possibilidade de interação e colaboração entre os fornecedores de conteúdo e seus usuários (O’REILLY, 2005), surgiram alguns websites com o objetivo de compartilhar partituras sendo uma de suas principais características a produção de edições digitais pelos próprios usuários desses websites. Isso se deu graças à facilidade de acesso aos programas de notação musical. Assim, uma profusão de material foi disponibilizada online, facilitando grandemente o acesso ao repertório tradicional e de música antiga.

Porém, apesar do evidente benefício trazido por esses empreendimentos, com eles muitas edições de qualidade e procedência duvidosa passaram a ser distribuídas, como vemos na afirmação de Selfridge-Field:

A auto publicação de partituras, possibilitada primeiro pela impressão de mesa, levou à criação de muitas editoras pequenas para a produção de música, as quais tem por sua vez conduzido à dispersão do controle editorial (e, alguns podem argumentar, uma diminuição de padrões críticos). (2015)

Os problemas encontrados nessas edições são de natureza diversa, podendo estar relacionados com a falta de informação das fontes nas quais essas edições se baseiam, erros de vários tipos e péssimo layout. Esses problemas acabam atrapalhando na fluência dos ensaios e os erros sendo transmitidos para um público ainda maior. O próprio autor do programa Sibelius cita essa como sendo uma das desvantagens de se utilizar softwares de notação:

Outra possível desvantagem é que porque qualquer um pode comprar um computador agora e pode comprar um software para escrever música isso significa que todos pensam que são especialistas no que estão fazendo. Antes, para criar uma partitura você tinha que passar por um aprendizado que durava muitos anos e aprender muitas habilidades diferentes sobre como a música deveria parecer e sobre as artes gráficas do layout da música na página. Hoje as pessoas assumem que o computador irá fazer absolutamente tudo isso para elas mas de fato você ainda precisa de um olho para o detalhe e um olho para como as coisas devem parecer. (FINN, 2015)

Stone afirma que “tempo de ensaio, sendo caro, era limitado, e intérpretes estavam (e ainda estão) todos com muita frequência mal ensaiados e longe do que deveriam estar” (STONE, 1980: xvii). Por isso cada detalhe na preparação do ensaio fará toda a diferença para o sucesso de uma performance, e nisso está incluída a escolha de uma boa edição, que não prejudique os músicos e que contenha os elementos necessários para que o ensaio aconteça com fluência.

Sobre essa questão, Gould afirma:

O péssimo estado das partes instrumentais é frequentemente uma fonte de ansiedade igualmente para compositores e intérpretes visto que um layout ruim – espaçamento ruim e viradas de páginas menosprezadas, por exemplo – podem atrapalhar uma boa performance. Quando um intérprete comete erros em ensaio, frequentemente é porque há algo errado com o layout ou a notação. Gastar tempo de ensaio resolvendo dificuldades de leitura desnecessárias é injusto com os músicos, os quais esperam investir seu tempo e energia na música. Em minha experiência, os profissionais são frequentemente muito tolerantes com uma má apresentação – eles deveriam ser livres para devotar suas mentes à performance, não decifrar a parte. (GOULD, 2011: xi)

Em seguida a autora cita uma carta de Gustav Mahler a sua esposa sobre esse mesmo assunto:

O que esse copista fez a mim (aquele que causou uma impressão afetada e desagradável em nós na época) é simplesmente terrível demais. Em cada parte, onde quer que um instrumento tenha uma longa passagem de pausas, ao invés de escrevê-las inteiras, o porco preguiçoso meramente escreveu tacet (que é normalmente feito somente quando um instrumento permanece em silêncio por um movimento inteiro). – Então agora, não somente os intérpretes não conseguem se orientar, mas quando eu, pobre coitado, quero mudar a orquestração, ao invés de simplesmente escrever os compassos necessários no lugar apropriado, também tenho que escrever toda a passagem tacet, e às vezes tenho que apagar várias linhas para ter espaço. Isto está tomando horas e horas do meu tempo…. (MAHLER apud GOULD, 2011, p. xi, grifos do autor)

Nos livros de notação é possível identificar alguns aspectos que precisam ser observados pelo copista na disposição de alguns elementos da partitura que facilitarão o músico na leitura, ou, pelo menos, não o prejudicarão.


Na próxima postagem veremos a importância do layout na partitura, dando exemplos de alguns desses aspectos.

FINN, Jonathan. Music Printing: Sibelius. Transcrição de entrevista concedida em documentário. The Open University. Disponível em: <http://podcast.open.ac.uk/oulearn/engineering-and-technology/podcast-ta212-music-printing#!6e410de3c1>. Acesso em: 27 out. 2015.
GOULD, Elaine. Behind Bars: The Definitive Guide to Music Notation. Londres: Faber Music, 2011.
O’REILLY, Tim. What Is Web 2.0: Design Patterns and Business Models for the Next Generation of Software. [S.l.]: O’Reilly Media, 2005. Disponível em <http://www.oreilly.com/pub/a/web2/archive/what-is-web-20.html>. Acesso em: 21 out. 2015.
SELFRIDGE-FIELD, Eleanor. Music publishing by computer. In: Printing and publishing of music. Grove Music Online. Oxford Music Online. Oxford University Press. Disponível em: <http://www.oxfordmusiconline.com/subscriber/article/grove/music/40101pg1#S40101.1.6.2>. Acesso em: 20 ago. 2015.
STONE, Kurt. Music Notation in the Twentieth Century: A Practical Guidebook. New York: W. W. Norton & Company, 1980.

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