Editoração musical: a influência da notação na performance

Na seção anterior já apontamos a importância das margens no layout da partitura. Essa citação tirada de um artigo na internet explica de forma clara a influência exercida por elas na leitura:

Margens de página fazem a diferença porque certas formas e proporções são naturalmente agradáveis para o olhar. […] Uma página com um bloco de texto proporcional e bem posicionado é visto como em descanso. Remover a tensão do design permite que o foco do leitor se volte ao significado do texto. (BRICKER, 2011)

Da mesma maneira, para facilitar a leitura, é necessário levar em consideração a quantidade de pautas e o espaçamento entre eles. Segundo Gould,

O layout ideal é um número similar de sistemas em cada página. O propósito disso é conseguir uma distribuição uniforme dos símbolos entre as páginas, o que facilita a fluência da leitura. [..] é mais difícil ler sistemas muito espaçados (GOULD, 2011, p. 487, grifo nosso).

Às vezes, pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença. Um exemplo disso é que

Barras de compasso em sistemas adjacentes não devem ser alinhadas. Se as barras de compasso coincidirem, os sistemas que contém material semelhante se parecerão muito e o olho ficará suscetível a pular um sistema; em uma partitura, pautas adjacentes vão parecer como se fossem parte do mesmo sistema. (GOULD, 2011, p. 489; ver também STONE, 1980, p. 8)

Outra questão é o posicionamento dos elementos em relação ao pentagrama. Stone afirma que “é importante observar o posicionamento habitual de dinâmicas e outras instruções porque intérpretes esperam que eles apareçam em locais específicos. Exceções a estes costumes tendem a diminuir a velocidade dos ensaios (STONE, 1980, p. 31, grifo nosso)”. O comprometimento do ensaio por causa do material utilizado é consequência da falta de critérios rigorosos na produção daquela edição.

É sempre útil adicionar marcações de ensaio usando letras envoltas por um círculo ou um retângulo no início de cada seção musical ou em intervalos frequentes. Gould assegura que “marcações de ensaio bem colocadas fazem uso mais eficiente do tempo de ensaio, já que os intérpretes gastam menos tempo contando compassos” (GOULD, 2011, p. 485). Ou seja, indicar os números de compasso evita desperdício de tempo desnecessário. Assim vemos que algumas escolhas podem resultar em problemas para a performance, enquanto que outras têm como objetivo facilitá-la.

A escolha dos símbolos musicais utilizados também é muito importante para uma melhor fluência do ensaio, principalmente quando se trata de música contemporânea. O trabalho de Stone (1980), por exemplo, surgiu da dificuldade decorrente da falta de padronização dos símbolos utilizados na música dos compositores contemporâneos. Muitos desses símbolos possuíam significados distintos em cada composição (STONE, 1890, p. xvii). Isso, além de confundir os músicos, toma muito tempo de ensaio até que se entenda a real intenção do compositor e ainda pode gerar interpretações incorretas. Damos como exemplo o que Stone diz sobre a notação de quartos de tom. Ele afirma que

mesmo em música não-tonal […] a notação de quartos de tom deve ser escolhida com cuidado, visto que resultados mais rápidos e mais precisos serão alcançados no ensaio se os sustenidos, bemóis e naturais quartos de tom não forem misturados tão aleatoriamente. (STONE, 1980, p. 68)

Ao falar dos estilos de fonte usados na partitura (itálico, negrito), Gould afirma que “o leitor está acostumado a essa diferenciação no texto, e assim a informação pode ser assimilada mais rapidamente” (2011, p. 492).

Além dos aspectos já citados, muitos outros influenciam na fluência da leitura musical. É preciso levar em consideração o espaçamento entre as notas, o tamanho dos símbolos musicais, se existem símbolos sem significado ou explicação, retornos confusos, erros nas regras de notação. Assim como o editor/copista precisa estar atento a essas questões, o intérprete precisa estar consciente na escolha das edições que irá utilizar para preparar sua performance pois uma escolha ruim pode prejudicar sua preparação e frustar suas expectativas.

BRICKER, Dave. Book Design Basics Part 1: Margins and Leading. The World’s Greatest Book. 24 out. 2011. Disponível em: <http://theworldsgreatestbook.com/book-design-part-1/>. Acesso em: 26 out. 2015.
GOULD, Elaine. Behind Bars: The Definitive Guide to Musical Notation. Londres: Faber Music, 2011.
STONE, Kurt. Music Notation in the Twentieth Century: A Practical Guidebook. New York: W. W. Norton & Company, 1980.

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