Edição ou editoração?

Uma pessoa que copia uma partitura manuscrita para um programa de notação musical está fazendo o quê? Editando? Essa pessoa é o quê? Um editor?

Geralmente essas são as primeiras palavras que nos vêm à mente para definir o ato de transcrever uma partitura para o computador ou para definir a pessoa que o faz. Porém esse conceito está errado. No livro Música sacra e religiosa brasileira dos séculos XVIII e XIX, Carlos Alberto Figueiredo diz o seguinte:

[…] grande parte das obras editadas […] hoje […] o é […] sem uma reflexão consciente […]. Junte-se a isso a quantidade de curiosos que confundem cópias com edições, e os softwares de música, que ajudam nessa confusão, com o largo emprego do termo “editar”, que nada tem a ver com o termo técnico correto.

(FIGUEIREDO, 2014)

Em um texto publicado em seu blog, Susana Igayara define para nós o que é edição musical:

A edição musical é o trabalho de preparação para publicação, e diz respeito às escolhas feitas na apresentação desse material, principalmente quando se trata do trabalho de uma outra pessoa que não o compositor.

(IGAYARA, 2010)

Dessas citações, podemos destacar algumas palavras chave: reflexão consciente e escolhas feitas. Assim, o papel de um editor, de forma superficial, é refletir sobre uma obra a ser editada, baseando-se em aspectos históricos, estilísticos, etc, e fazer escolhas que resultarão em um material a ser publicado.

editoração é o processo de preparar esse material para que seja impresso. Segundo a autora:

Editoração é o trabalho de preparação técnica de originais. Chama-se editoração eletrônica o conjunto de atividades ou processos de montagem e apresentação gráfica, realizados por meio de programas e equipamentos computacionais.

(IGAYARA, 2010)

Esse é um processo técnico que envolve simplesmente copiar o conteúdo de uma fonte para o programa de computador, de forma literal, e aplicar os padrões de publicação e regras da notação musical a esse material, como espaçamento, tamanho e tipo de fonte, margens, etc.

Como Igayara nos dá a entender, o processo de editoração pode ocorrer na publicação de uma obra que vem direto do compositor, sem a intervenção de um editor. Também pode acontecer quando um manuscrito é impróprio para execução e necessita de uma editoração, e é nesse caso que  ocorre o problema levantado por Figueiredo. Muitas vezes essas editorações são chamadas de edições, e pior ainda, o layout final da partitura é deixada a cargo dos próprios softwares de notação musical, que apesar de toda sua evolução ao longo dos anos não são capazes de proporcionar o refinamento necessário que apenas um profissional bem treinado terá ao olhar para a partitura.


Bibliografia

IGAYARA-SOUZA, Susana. Repertório Coral: Alguns aspectos sobre a Edição de Música (preprint). In: Canção Coral Brasileira: Repertório e Educação, História e Práticas Culturais. Relatório final de atividades e de pesquisa referente ao período de estágio probatório em RDIDP (2004- 2010). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010. pp. 95-99.

FIGUEIREDO, Carlos Alberto. Introdução. In Música sacra e religiosa brasileira dos séculos XVIII e XIX: Teorias e práticas editoriais. Rio de Janeiro: ed. do autor, 2014. p. 9-11.

One Reply to “Edição ou editoração?”

  1. Que boa notícia é essa sua página. Fico feliz que o projeto tenha começado. Gostei das postagens, linguagem direta, clara e informativa. Com certeza vai ajudar a muita gente que está comçando e é muito bom ver que os projetos que você desenvolveu na USP começam a ganhar mais fôlego. Conte comigo para o que precisar!

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